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O Pescador

O HOMO RELIGIOSUS PDF Imprimir E-mail
Seg, 23 de Maio de 2011 23:52

O homo religiosus 

Resumo¹

 Mircea Eliade

 

       O sentimento de sacralidade, presente de forma muito visível no homem primitivo, permanece ainda hoje, de modo que à nossa espécie poder-se-ia chamar de homo religiosus. Há um sagrado intrínseco na natureza humana, que se manifesta mesmo naqueles que são profanos, a saber, os que renunciam à visão sacralizada do mundo.

Caracteriza-se esta visão na forma heterogênea de ver o mundo. Há um local sagrado, que pode ser um altar, um templo, uma pedra que apresentou uma “hierofania” (uma manifestação sagrada). Existe, portanto, um mundo bipartido, formado por locais sagrados e pelo resto do mundo.

Para o homem profano, não há esta dualidade. O mundo é homogêneo, sem espaços especiais. Todavia, mesmo este, o profano, ainda guarda resquícios da visão sacralizada, o que se nota, por exemplo, no costume de eleger determinados locais como dignos de consideração especial: o local onde se deu a lua de mel, uma paisagem que se conheceu em uma viagem, um trecho de estrada onde se sofreu um acidente. É uma espécie de “experiência religiosa do espaço”.

Para o homem sagrado moderno, os exemplos são ainda mais evidentes. É o caso de uma igreja, vista pela maioria dos religiosos como um ambiente diferente, separado do mundo profano. Dentro de uma igreja não se diz palavrão, mas na calçada em frente a ela, ou no bar do outro lado da rua, o homem religioso se sente à vontade de fazer o que não faria no lugar sagrado. Ele traça uma distinção espacial dualista do mundo.

Outro exemplo é o limiar entre a porta de casa e o mundo. Na história do Êxodo, Moisés ordenou que se pintasse uma marca no limiar das portas para que o anjo destruidor não entrasse. Nas culturas egípcia e babilônica também a divisória da casa tinha o poder de proibir a entrada de demônios.

Hodiernamente, o vodu haitiano tem o hábito de lançar pó no chão da porta para impedir que pessoas mal intencionadas entrem. Um cidadão profano muitas vezes tem o hábito de atravessar o limiar com a perna direita, julgando que a travessia com a perna esquerda traga azar.

A criação de locais sagrados

De forma transcendente, julga o homem religioso que há uma porta, um limiar para se alcançar os deuses. No Gênesis, Jacó sonhou e viu uma escada e uma porta, a “porta dos céus”. Erige uma pedra como altar naquele local e o nomeia como Betel (casa de Deus – Gênesis 28.12-19). O local em que dormia, portanto, por ser alvo de uma hierofania, uma manifestação do sagrado, foi considerado como local sagrado.

A descoberta de locais sagrados pode ser orientada por métodos religiosos, como soltar um animal em determinada região e procurá-lo posteriormente. Onde o animal tiver parado, será o local para se construir um altar, um templo, até mesmo uma cidade sagrada.

Descoberto o local sagrado, será inaugurado por algum ato religioso. É o caso do ritual védico para se tomar posse de um território: ergue-se um altar à deusa do fogo, Agni. O local é, portanto, consagrado. Quando os europeus chegaram ao Novo Mundo, erguiam cruzes e realizavam missas, inaugurando a nova terra, consagrando-a a seu Deus.

A consagração de um lugar é como a repetição do ato macrocósmico do Deus criador. Deus ocupou o Caos e o transformou em Cosmos. Os cristãos ocuparam o Novo Mundo e o transformaram numa “Terra de Santa Cruz”. Até esta consagração, este mundo novo não existia como mundo, fazendo parte do caos. Para o homem religioso, o mundo só se fazia mundo a partir do momento em que ele e os seus iguais o consagravam como tal.

 

Pilares

       Eis um exemplo atual de consagração nos moldes primitivos conforme observada em uma tribo (nas palavras de Mircea Eliade): “A relação íntima entre cosmização e consagração atesta se já aos níveis elementares de cultura, por exemplo entre os nômades australianos cuja economia se encontra ainda no estágio da colheita e da caça miúda. Segundo as tradições dos achilpa, uma tribo Arunta, o Ser divino Numbakula “cosmizou”, nos tempos míticos, o futuro território da tribo, criou seu Antepassado e fundou suas instituições. Do tronco de uma árvore da goma, Numbakula moldou o poste sagrado (kauwa auwa) e, depois de o ter ungido com sangue, trepou por ele e desapareceu no Céu. Esse poste representa um eixo cósmico, pois foi à volta dele que o território se tornou habitável, transformou se num “mundo”. Daí a importância do papel ritual do poste sagrado: durante suas peregrinações, os achilpa transportam no sempre consigo e escolhem a direção que devem seguir conforme a inclinação do poste. Isto permite que os achilpa, embora se desloquem continuamente, estejam sempre no “seu mundo” e, ao mesmo tempo, em comunicação com o Céu, onde Numbakula desapareceu. Se o poste se quebra, é a catástrofe; é de certa maneira o “fim do Mundo”, a regressão ao Caos. Contam Spencer e Gillen que, tendo se quebrado uma vez o poste sagrado, toda a tribo foi tomada de angústia; seus membros vaguearam durante algum tempo e finalmente sentaram-se no chão e deixaram-se morrer”.

Pilares sagrados, aliás, são abundantes nas diversas culturas. Os celtas e germanos os cultuavam, o Rig Veda fala do skambha, um pilar cósmico que sustenta o mundo. Encontram-se antigos postes nas ilhas Canárias, na Columbia britânica, na Indonésia. Os kwakiutl, da Colúmbia britânica, criam que a via láctea, visível no céu, era um destes pilares do universo.

A propósito, os astrônomos modernos tomaram emprestado o termo, de modo que chamam de “pilares da criação” a imensas massas de gases no universo, responsáveis pela formação de nebulosas e estrelas.

 

Montes e edificações

 

      As montanhas também costumam ser compreendidas com a mesma função dos pilares. São os sustentáculos do céu, muitas vezes representam o centro do mundo e são locais de frequentes hierofanias, locais para se encontrar com os deuses.

Foi num monte que Moisés encontrou Javé e dele recebeu os dez mandamentos. Num monte Abrão ofereceu Isaque em sacrifício e o Cristo foi crucificado. No Japão, o xintoísmo cultua o monte Fuji. Os hindus veneram o monte Meru. Na Grécia antiga, Zeus construiu seu palácio no monte Olimpo. Estes locais muitas vezes são tidos também como o centro do cosmo, o pilar central.

De forma artificial, os montes podem ser simulados em construções humanas. Assim os templos, torres, pirâmides, zigurates, palácios de imperadores divinos podem ter o mesmo papel de centro do mundo. Para judeus e cristãos, Jerusalém seria o centro do mundo. Os muçulmanos dizem o mesmo da Caaba, onde se reúnem no mês do Ramadã.

As pirâmides ou zigurates astecas e maias eram a própria escada para o céu. Países católicos costumam erguer grandes estátuas de santos em algum horto, como é o caso do cristo Redentor no Rio de Janeiro e tantas outras estátuas de santos padroeiros nas cidades brasileiras.

Orbe e urbe

     O cerne do conceito de sacralização do espaço é a identificação de um centro do mundo. Este centro é fisicamente marcado pelo pilar, a torre, o templo, a montanha, por fim, pela cidade, a urbis. Finalmente, a casa. O lar do homem religioso é o centro de seu mundo, uma réplica do universo, um cosmo em miniatura.

Segundo Mircea Eliade, “o homem religioso experimenta a necessidade de existir sempre num mundo total e organizado, num Cosmos”. Uma forma de suprir esta necessidade é fazendo da casa e da urbe um cosmo em miniatura. Em muitas culturas tribais, há uma casa central, ocupando o meio da aldeia, praticamente representando a abóbada celeste, como é o

caso da oca nas tribos brasileiras. Cidades modernas ostentam um obelisco ou monumento marcando o seu centro.

O templo é como uma maquete do cosmo ou do mundo divino e celestial. O templo de Jerusalém teve sua primeira planta elaborada por Moisés sob detalhadas orientações de Javé. O profeta Ezequiel tem uma visão pormenorizada do templo no reinado do Messias, como se fosse a própria cidade celestial. No Apocalipse, esta comparação entre o templo e o céu se repete. O rei babilônico Gudéia experienciou em sonhos a visão da deusa Nidaba que lhe mostrou um mapa do céu e o projeto do templo.

As basílicas cristãs, particularmente as góticas e bizantinas, mantiveram muito desta identificação com o céu: torres com ogivas apontando para o céu e abóbadas representando um universo no interior no templo.

Quanto ao lar, a forma de consagrá-lo pode ser pela presença de um poste ou coluna central, a oferta de sacrifício no ato de sua construção ou inauguração, a disposição dos vértices da casa em relação aos pontos cardeais ou a presença de um altar em seu interior, como ocorre ainda hoje em residências de pessoas religiosas.

A simbologia do Dragão

      Nada melhor aqui do que reproduzir as próprias palavras de Mircea Eliade sobre a simbologia arcaica do Dragão, como elemento promovedor de caos e inimigo da divindade que impõe ordem. O Dragão é o elemento desorganizador do espaço, o caos oposto à ordem.

“Visto que “nosso mundo” é um Cosmos, qualquer ataque exterior ameaça transformá-lo em “Caos”. E dado que “nosso mundo” foi fundado pela imitação da obra exemplar dos deuses, a cosmogonia, os adversários que o atacam são equiparados aos inimigos dos deuses, aos demônios, e sobretudo ao arquidemônio, o Dragão primordial vencido pelos deuses nos primórdios dos tempos. O ataque de “nosso mundo” equivale a uma desforra do Dragão mítico, que se rebela contra a obra dos deuses, o Cosmos, e se esforça por reduzi Ia ao nada. Os inimigos enfileiram-se entre as potências do Caos. Toda destruição de uma cidade equivale a uma regressão ao Caos. Toda vitória contra o atacante reitera a vitória exemplar do Deus contra o Dragão (quer dizer, contra o “Caos”).

É por essa razão que o faraó era assimilado ao deus Rã, vencedor do dragão Apophis, ao passo que seus inimigos eram identificados a esse Dragão mítico. Dario considerava se um novo Thraetaona, herói mítico iraniano de quem se dizia ter matado um Dragão de três cabeças. Na tradição judaica, os reis pagãos eram apresentados sob os traços do Dragão: tal é o Nabucodonosor descrito por Jeremias (51,34) e o Pompeu apresentado nos Salmos de Salomão (IX, 29).

Conforme ainda teremos ocasião de ver, o Dragão é a figura exemplar do Monstro marinho, da Serpente primordial, símbolo das Águas cósmicas, das trevas, da Noite e da Morte – numa palavra, do amorfo e do virtual, de tudo o que ainda não tem uma “forma”. O Dragão teve de ser vencido e esquartejado pelo Deus para que o Cosmos pudesse vir à luz. Foi do corpo do monstro marinho Tiamat que Marduk deu forma ao mundo. Jeová criou o Universo depois da vitória contra o monstro primordial Rahab. Mas, como veremos, essa vitória do deus sobre o Dragão deve ser repetida simbolicamente todos os anos, pois todos os anos o mundo deve ser criado de novo. Da mesma maneira, a vitória do deus contra as forças das Trevas, da Morte e do Caos repete se a cada vitória da cidade contra os invasores”.

Curiosa é a atualidade destas palavras escritas na década de 50. Recentemente, o ataque de terroristas estrangeiros a Nova Iorque despertou um sentimento nacional de temor do caos e destruição que o dragão externo, o terrorista, poderia trazer. Carros bomba e aviões sequestrados insurgindo-se contra a cidade, contra o pequeno cosmo, o centro do mundo simbolizado na urbe, parecem uma nova manifestação da milenar luta da divindade contra o dragão.

Conclusão

      Nota-se, portanto, que a relação do homem com o espaço é, desde os primórdios, marcada pela busca de uma ordem cosmológica. Para o religioso, o mundo não é um caos. Encarar o mundo como um caos é algo mais comum em ateus e não religiosos em geral, exatamente porque a busca duma ordem, dum Cosmos, é uma busca religiosa.

Por esta razão, os povos primitivos desenvolveram mitos cosmológicos, histórias que explicam a criação e organização do mundo pelos deuses. E procuram recriar ciclicamente estes mitos por meio dos rituais e práticas religiosas.

Quanto ao homem profano, aquele que abandonou a visão mítica do mundo, é interessante notar que nele ainda persiste o germe da noção cosmológica. Todavia, sua explicação para isto será, geralmente, voltada ao aproach científico.

Temos um antigo exemplo em Epicuro e Lucrécio, que, combatendo a visão meramente religiosa do mundo, encontravam nos átomos a explicação para os fenômenos e para a ordem do universo.

Numa revisão desta abordagem cosmológica, o homem religioso moderno, o teólogo, utiliza o termo “design inteligente” para explicar a ordem que observa no universo. De certa forma, tanto na abordagem religiosa quanto na profana, esta ordem é uma ordem antropológica, pois é descrita conforme se nos apresenta, a nós, humanos.

 

¹Resumo  baseado na obra O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade